Nas duas últimas edições da Revista @prender, iniciamos a publicação de uma série de seis matérias que descrevem as bases do planejamento estratégico aplicado ao setor educacional. Nesta edição, publicamos a terceira parte da série, que aborda o diagnóstico estratégico interno.
Por Carlos A. Monteiro e Ryon Braga
Parte III - O Diagnóstico Estratégico Interno e Construção de Cenários
Diagnóstico Estratégico Interno
A análise interna objetiva evidenciar as deficiências (pontos fracos) e as qualidades (pontos fortes) da instituição para estabelecer quais são suas "competências distintivas" no cenário competitivo. Esta análise deve estar sempre baseada na comparação com as outras instituições do setor, sejam elas concorrentes diretas ou não .
Pontos fracos: são características internas da instituição que lhe imputam uma condição desfavorável no processo competitivo ou frente ao ambiente onde ela se insere. São exemplos de pontos fracos: a falta de foco no negócio; precariedade nas instalações, problemas operacionais internos; estratégias de marketing e comunicação deficitárias; baixa qualificação de professores e funcionários; falta de recursos para investimentos, entre outros.
Pontos fortes: são características internas da instituição que lhe propiciam uma condição favorável no processo competitivo ou frente ao ambiente onde ela se insere. São exemplos de pontos fortes: competências básicas em áreas-chave; imagem de qualidade no mercado; qualificação do corpo docente e dos funcionários; gestão profissional; recursos financeiros para investimento; instalações adequadas e modernas; uso de tecnologia a serviço da redução de custos, entre outros.
Ameaças: são fatores externos, oriundos do macroambiente ou do setor de negócios da instituição, que poderão vir a criar condições competitivas desfavoráveis para ela. São exemplos de ameaças: entrada de novos concorrentes; alterações na legislação educacional; mudanças nos hábitos dos consumidores de serviços educacionais; redução da natalidade e da taxa de crescimento populacional, entre outros.
Oportunidades: são fatores externos, oriundos do macroambiente ou setor de negócios da instituição que, se aproveitados, poderão vir a criar condições competitivas favoráveis para ela. São exemplos de oportunidades: surgimento de novos mercados; mudança de mentalidade do consumidor (paradigma da educação permanente); alteração na legislação educacional; novos modelos de negócios e parcerias; aparecimento de novas metodologias de ensino, entre outros.
Outra maneira comum de definir os elementos diagnósticos é conceituá-los a partir da missão da instituição, em que os pontos fortes são condições internas da instituição, que contribuem para o cumprimento de sua missão e facilitam a consecução dos objetivos, e os pontos fracos são condições internas da instituição, que reduzem a probabilidade de cumprimento de sua missão e dificultam a consecução dos objetivos .
Algumas empresas, mais afeitas ao processo de gestão estratégica, chegam a criar uma "carteira de projetos de diversificação" com base na relação de oportunidades encontradas no diagnóstico externo.
Uma das etapas mais negligenciadas do diagnóstico estratégico interno é a confrontação, ao final do diagnóstico, entre os elementos que permitam estabelecer a seguinte comparação: como a instituição é de fato versus como seus dirigentes acreditam que ela seja.
A coleta de informações para o diagnóstico interno pode e deve ser efetuada por diversas vias, sempre considerando a opinião de todos os envolvidos e não apenas do dirigente da instituição. No mínimo, as opiniões dos seguintes públicos precisam ser conhecidas pela instituição:
- alunos iniciantes
- alunos veteranos
- familiares dos alunos
- ex-alunos
- professores
- funcionários
- dirigentes
- prospects (futuro aluno potencial)
- comunidade
- imprensa
Devem ser utilizados diversos instrumentos para a coleta de informações, visando a análise interna, entre eles:
- observação pessoal
- questionário padronizado
- conversas pessoais
- documentos da instituição (relatórios, memorandos, comunicações internas, atas de reuniões etc)
- reuniões
- indicadores econômicos e financeiros
Para a realização do diagnóstico estratégico interno, devemos obter informações detalhadas sobre os seguintes elementos:
| 1 | Perfil dos atuais clientes: | ||||||||
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Segundo pesquisas da Hoper Educacional, na realidade das instituições privadas no Brasil, o que costuma ocorrer com grande freqüência é o seguinte:
- o aluno novato tem alto grau de satisfação (em torno de 85%, em média);
- o aluno veterano tem grau de satisfação moderado (60% a 70%, em média) e;
- o aluno egresso (ex-aluno) tem grau de satisfação bem menor (em torno de 50%, em média).
Isso evidencia claramente a dificuldade que as instituições apresentam em fidelizar seus clientes.
| 2 | Perfil do corpo docente: | ||||||||||
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| 3 | Perfil da infra-estrutura da IES: | ||||||||
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| 4 | Avaliação dos serviços terceirizados: | |||||
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| 5 | Avaliação da condição financeira: | |||||
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| 6 | Avaliação dos Recursos Humanos: | ||||||||
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| 7 | Avaliação da Estrutura de Marketing da IES: | |||||||||||||||||||||||||
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| 8 | Avaliação dos aspectos legais da IES: | ||||
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| 9 | Perfil da tecnologia e dos sistemas utilizados: | |||
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| 10 | Organização interna: | ||||||||||
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Síntese da Avaliação Interna
Consiste em classificar os itens avaliados em cada uma das estruturas da IES como ponto forte, ponto fraco ou item neutro, de forma que seja possível tirar conclusões sobre quais são os elementos mais vulneráveis da instituição e quais são os mais sólidos.
Ao relacionar a síntese dos pontos fortes e fracos da instituição, é preciso atribuir um peso ao grau de importância daquele elemento para o negócio no geral. Além disso, quando forem feitas estratégias para atuar nos pontos fortes e fracos, é preciso estabelecer um grau de prioridade nas ações.
| Correlação de fatores para o Diagnóstico Estratégico Interno | |||
| Fatores | Pontos fortes | Pontos fracos | Itens neutros |
| Clientes atuais | |||
| Corpo docente | |||
| Infra-estrutura | |||
| Serviços terceirizados | |||
| Condição financeira | |||
| Recursos humanos | |||
| Estrutura de marketing | |||
| Aspectos legais | |||
| Tecnologia e sistemas | |||
| Organização interna | |||
Análise dos produtos da instituição (cursos)
| 1 | Análise das condições internas: | ||||||||
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| 2 | Análise das condições externas: | ||||||||
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| MATRIZ HOPER/CM DE ANÁLISE DE CURSOS | ||||||||
| CRITÉRIOS EXTERNOS | ||||||||
| CURSO 1 | CURSO 2 | CURSO 3 | CURSO 4 | CURSO 5 | CURSO 6 | CURSO n | ||
| Demanda atual de Alunos | Demanda atual de Alunos | |||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Tendência da Demanda | Tendência da Demanda | |||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Concorrência | Concorrência | |||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Valor da Mensalidade | Valor da Mensalidade | |||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Condições de Localização e Acesso | Condições de Localização e Acesso | |||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Situação do Mercado de Trabalho | Situação do Mercado de Trabalho | |||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Grau de Empregabilidade do Egresso | Grau de Empregabilidade do Egresso | |||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Imagem do Curso perante seu público-alvo | ||||||||
| Grau de importância (peso) | Grau de importância (peso) | |||||||
| Total | Total | |||||||
| CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO | |
| Classificar de 0 a 2 pontos segundo os seguintes critérios: | |
| 1) Demanda Atual de Alunos | Número de alunos que ingressam no curso. Notas: 0= insatisfatória; 1= satisfatória; 2= há excendente em demanda |
| 2) Tendência da Demanda | Esta nota é atribuída com base na projeção do comportamento dos prospects. Notas: 0 = curso com tendência de queda na demanda; 1 = demanda estável; 2 = curso com tendência de crescimento na demanda. |
| 3) Concorrência | Esta nota é atribuída de acordo com a quantidade de alunos matriculados nas IES concorrentes. Notas = 0 grande concorrência; 1 = concorrência moderada; 2 = baixa concorrência |
| 4) Valor da Mensalidade | Nota 0 = acima da média dos concorrentes; 1 = na média; 2 = abaixo da média da concorrência |
| 5) Condições de Localização e Acesso | A nota deve ser atribuída em comparação com as condições dos concorrentes diretos: Nota 0 = localização e acesso pior do que o da concorrência; 1 = igual ao da concorrência; 2 = mais vantajoso do que as da concorerência. |
| 6) Situação do Mercado de Trabalho | Nota 0 = mercado em declínio; 1 = mercado estável; 2 = mercado em ascenção |
| 7) Grau de Empregabilidade do Egresso | Capacidade de colocação ou desempenho profissional, avaliada sempre em comparação com a concorrência. Nota 0 = empregabilidade do egresso abaixo da concorrência, 1 = na média da concorrência; 2 = acima da média da concorrência |
| 8) Imagem do Curso perante seu público | Nota 0 = imagem negativa; 1 = imagem de qualidade moderada; 2 = imagem de curso de qualidade superior |
| Grau de Importância (Peso) | Refere-se ao fator de correção para cada item atribuído de acordo com a importância do item para os objetivos estratégicos da instituição. Atribui-se as seguintes notas: 0 = pouco importante; 1 = importante |
Lançamento de novos produtos (cursos) O lançamento de novos cursos deve vir em conseqüência da formulação de estratégias que apontem para tal necessidade, sendo preciso responder às seguintes perguntas para avaliar as reais chances de sucesso do curso:
Adoção de um produto (curso) O interesse que um curso novo pode proporcionar para uma clientela potencial varia de acordo com algumas características específicas, entre elas:
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Construção de cenários e prospecção de futuros
Cenários são imagens e antecipações de futuros prováveis, que servem para embasar as decisões do presente. Os cenários não eliminam todas as incertezas em relação ao futuro - nem poderiam -, porém podem reduzi-las e organizá-las em um número limitado de alternativas com maior probabilidade de ocorrer.
A análise de cenários não tem como meta principal prever o futuro, mas sim descobrir imagens de futuros possíveis e prováveis que possibilitem às instituições de ensino tomar decisões bem fundamentadas a respeito de sua organização.
O professor Chiavenato lembra-nos que não basta a realização do diagnóstico de como estão os ambientes externo e interno da organização. É preciso saber combiná-los e integrá-los de maneira a saber o que está por trás deles e como poderão evoluir dali para frente. É preciso ainda definir premissas, ponderar eventuais desdobramentos e visualizar possíveis conseqüências, procurando minimizar os riscos inerentes à tomada de decisão.
Hamel e Prahalad apresentaram uma visão estratégica diferenciada da que estava sendo praticada pela maior parte das empresas. Essa visão de estratégia sugerida por eles reconhece que não é suficiente colocar a empresa em uma posição ótima dentro dos mercados existentes; o desafio é penetrar na nuvem de incerteza e desenvolver uma grande capacidade de previsão dos mercados de amanhã. De acordo com isso, para uma empresa chegar primeiro ao futuro, são necessários quatro elementos:
- a compreensão de que a competição pelo futuro é uma competição diferente;
- um processo para a descoberta e percepção das oportunidades futuras;
- habilidade de energizar a empresa de cima para baixo;
- capacidade de superar os concorrentes e chegar primeiro ao futuro sem correr grandes riscos.
A construção de cenários exige quatro competências básicas: (a) capacidade descritiva; (b) capacidade para se compreender os padrões mentais; (c) capacidade para se pensar de modo icônico e simbólico; (d) capacidade para realizar investigações detalhadas.
Nós não reagimos ao mundo, mas sim à nossa percepção de mundo. Do mesmo modo, nossas decisões são tomadas em função de nossos modelos mentais que, em sua maior parte, são inconscientes. Portanto, é fundamental para a construção de cenários que possamos tornar conscientes nossos modelos mentais e identificar sua influência em nossa tomada de decisão.
Quanto mais incerto e turbulento vai ficando o ambiente de negócios onde a instituição está inserida, mais útil e importante torna-se o exercício de construção de cenários. A probabilidade de ocorrerem mudanças no ambiente depende da:
| a | ||
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| b | ||
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Técnicas de Desenvolvimento de Cenários Estratégicos
- Dedução
- Indução
- Lógica Intuitiva
- Análise de Tendência de Impacto
- Análise de Impacto Integrativo
- Matriz de Cruzamento
- Método Delphi
Modelos de abordagem para Construção de Cenários Estratégicos
Existem duas formas básicas de se abordar a construção de cenários estratégicos: por meio da abordagem projetiva, que busca explicar o futuro estudando o padrão de comportamento passado - esta abordagem utiliza modelos deterministas e quantitativos, avaliando somente os fatores que já são conhecidos; pela abordagem prospectiva, que considera diferentes possibilidades de futuro, todos elas com diferentes probabilidades de ocorrência.
Para facilitar a construção de cenários, os diversos elementos que entram em sua composição poderão ser avaliados isoladamente. Assim, teremos uma análise detalhada de elementos como: estrutura tecnológica, questões político-econômicas, evolução do produto, evolução da prestação de serviços, estrutura sociocultural e comportamentos de consumo.
Construir cenários refere-se a responder à pergunta: "o que acontecerá se...". Este processo precisa ser feito por etapas, que devem levar em conta os seguintes elementos:
- Isolamento da decisão a ser tomada
- Identificação das forças motrizes
- Escolha dos indicadores
- Definição das premissas
- Criação de roteiros plausíveis
- Avaliação das implicações
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1 ROJO, Cláudio Antonio. Diagnóstico ambiental - uma etapa do planejamento estratégico para instituições de ensino superior da iniciativa privada: o caso da faculdade de ciências sociais aplicadas de Cascavel - Univel. Dissertação de Mestrado da UFSC, Florianópolis, 2001. 2 ESTRADA, Rolando Juan Soliz. Os rumos do planejamento estratégico na universidade pública: um estudo de caso na Universidade Federal de Santa Maria. Tese de Doutorado apresentada à UFSC. Florianópolis, 2000. 3 CHIAVENATO, Idalberto; SAPIRO, Arão. Planejamento estratégico. Rio de Janeiro: Campus, 2003. |
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