Aprender - O portal de ensino superior

Recursos Humanos

Nada mais prático que uma boa teoria

13/03/2008

Christina Lima
Da Tempestade Comunicação

O mercado de trabalho hoje em dia é extremamente dinâmico e não exige apenas técnicas ou práticas. O que se procura entre os formandos em cursos superiores, em todo o mundo é gente com boa formação, que esteja preparada para fazer análises profundas e entender as reais carências de uma sociedade. O ensinamento de Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira, professora livre docente da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade de Campinas) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Superior da instituição estadual mostra ser errado o foco dados por faculdades que priorizam "cursos da moda" e esquecem de dar uma boa base geral aos universitários que lá se matriculam, muitas vezes em processos seletivos pouco exigentes, já que esta formação também foi deficitária na infância e adolescência. Elisabete fala com conhecimento de causa, pois também é coordenadora geral do curso de Pedagogia para Professores em Exercício na rede pública da Região Metropolitana de Campinas.

@prender: Recentemente, uma universidade do Rio disse em sua campanha publicitária que "estava 100% antenada com o mercado de trabalho" e que lá "se aprende teoria na prática". Como é visto esse tipo de apelo? 

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
A questão envolve várias dimensões de preocupação, tanto da educação superior quanto dos estudantes, pais, e docentes. É comum dizer-se hoje que a universidade deve dar um ensino mais prático, mais ajustado ao mercado. Muitos alunos têm como preocupação fazer "estágios" para enriquecimento do currículo e para se familiarizar com o mundo da prática. Há professores que apenas discutem o lado prático do domínio do conhecimento, entendendo que as teorias são dispensáveis uma vez que as empresas apenas exigem esse tipo de conhecimento. Muitas instituições acreditam que com esse tipo de propaganda atrairá alunos interessados em ter penetração no mercado de trabalho.

@prender: Esse é um direcionamento errado? 

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
Quem discute seriamente a questão da formação do estudante universitário, sabe que esse é um direcionamento errôneo na questão curricular. Há um grande educador americano, Robert M. Hutchins, que diz "nada é mais prático do que uma boa teoria". O que esse pensamento tem como base é que formar um estudante universitário é formá-lo para todo um percurso de vida produtiva profissionalmente e não para um determinado momento histórico. O que esta faculdade [a da campanha no Rio] esta preocupada em seu currículo, não é com a formação do estudante, mas com um mercado seu, particularmente, em atrair alunos, pois, há pesquisas demonstrando que o conhecimento apenas prático ensinado nas instituições de ensino está totalmente desatualizado quando o aluno chega no mercado. O mundo do mercado é extremamente dinâmico, que não se mantém nas suas exigências técnicas ou práticas. Assim que um formado chega a ele com um determinado conhecimento prático, é solicitado a ter outros que não foram abordados anteriormente. Como ele [estudante] também não teve a parte teórica onde se fundam os conhecimentos práticos, não sabe onde buscar em si mesmo, a nova solicitação. Assim, a afirmação de Hutchins, feita nos anos 1930, é válida para toda instituição que quiser formar seu aluno para um mercado de trabalho mutante como o nosso.

@prender:  As universidades já tiveram um papel mais importante no processo de desenvolvimento humano. Hoje pais e estudantes parecem estar apenas preocupados com cursos mais promissores profissionalmente?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
As boas universidades do mundo desenvolvido, como Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália ou Japão, continuam a ter uma preocupação com o processo do desenvolvimento humano, como se pode constatar estudando os currículos dessas instituições. A Universidade Harvard [EUA] implantou, desde 2007, uma nova estruturação curricular e nela a formação geral do estudante continua sendo a base fundamental. No relatório do grupo de trabalho encarregado da discussão curricular com todos os docentes e alunos se lê que "a Universidade Harvard busca graduar indivíduos amplamente educados, ainda que os encoraje a desenvolver uma mais profunda compreensão de um ou outro campo do conhecimento". Buscam trabalhar conhecimentos gerais com o propósito que estes iluminem as questões estudadas numa perspectiva mais ampliada que aquela proporcionada pela formação específica para uma determinada profissão. Esta universidade vê a finalidade dos estudos feitos na etapa da formação em um campo ou área especializada [profissionalização], não como a do domínio ou treino, mas como um meio pelo qual os estudantes podem evoluir mais profundamente seu pensamento por meio do desenvolvimento de um conjunto de cursos que são mais voltados para uma área do conhecimento. Não vêem a finalidade da universidade de dar treinamento para formar especialistas. Afirmam que a obrigação ética dos professores é com o ensino de seus alunos e com sua responsabilidade no processo de formação dos estudantes.

@prender: A capacitação dos estudantes deve ser abrangente, então?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
Ainda usando a reforma curricular da Universidade de Harvard como exemplificação, se pode ler no relatório que a finalidade da educação é a de que o ensino capacite os estudantes a desenvolver múltiplas perspectivas sobre si mesmos e sobre o mundo [não o mundo do trabalho, mas o mundo natural e social] e dar-lhes o conhecimento, o entendimento e as habilidades para imprimirem um sadio fundamento para as suas vidas. Sabemos que esta universidade é tida como a melhor do mundo e que seus estudantes não ficam desempregados. Lá, forma-se um profissional promissor dessa maneira. Tenho a certeza que todos os pais quereriam este tipo de formação para seus filhos.

@prender: E as profissões do momento?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
Olhando o mercado de trabalho vemos que de tempos em tempos são umas ou outras profissões que estão em alta. Vemos que muitos estudantes procuram se orientar para cursar as que, naquele momento, parecem garantias de emprego. Mas o que mais gera emprego é uma formação bem feita, e não se esta ou aquela profissão está em alta. Hoje, vemos que o mercado não está valorizando financeiramente todos os profissionais que saem dos cursos superiores; que há grande desconfiança na formação que determinadas faculdades estão dando, que muitos egressos de cursos superiores estão sem emprego. Assim, a difícil busca pela formação em nível superior não está garantindo o sonhado trabalho. O que está acontecendo é uma desconfiança na preparação do formado. O que o mercado quer é um jovem com uma boa formação. E isto, infelizmente, não são todos os estudantes que a estão recebendo.

@prender: Os últimos anos do ensino médio passaram a ser fortemente orientados para o êxito no vestibular. Essa é a tendência?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
A questão do ensino médio é outra mal-compreendida entre nós. Quando se diz que o ensino médio está com uma orientação para o vestibular, estamos dizendo para o vestibular de algumas instituições mais concorridas, pois há inúmeras faculdades cujo vestibular é quase inexistente. Já se ouve falar de processo seletivo contínuo, o que significa que não há época para ser realizado. O aluno pode ir à instituição e, naquele dia mesmo, "presta o processo seletivo" dado por uma "prova" que é corrigida quase que imediatamente e o aluno já sabe se passou. Daí para frente é só fazer a matrícula. O vestibular ou processo seletivo é um "mal" necessário onde há mais candidatos do que vagas. Vemos, por exemplo, seleção por meio de concursos para preenchimento de vagas em funções públicas e privadas. Usa-se esse tipo de seleção para verificar se a capacidade do candidato está em acordo com o perfil esperado para o cargo. A preocupação no vestibular é a mesma. Buscam-se alunos que saibam pensar, escrever, raciocinar e que tenham uma base de conhecimentos para, sobre ela, aprofundar e trabalhar novos conhecimentos. O que está acontecendo com o ensino médio é que ele não está formando os alunos com essas condições básicas. Esse é o conhecimento esperado do aluno no vestibular. As boas escolas não estão preocupadas com treino para o vestibular, mas com desenvolver a capacidade intelectual do aluno e, de posse dessa capacidade desenvolvida, o aluno tem as melhores condições para qualquer vestibular e qualquer curso superior. 

@prender: De acordo com sua tese, a maioria dos docentes da Unicamp é a favor de um currículo que priorize a formação básica e a formação geral do estudante, acima da formação profissionalizante. Os professores também demonstram interesse em uma reestruturação curricular em seus cursos, acompanhando a tendência mundial em defesa do saber integrado, mais voltado aos compromissos sociais e comunitários?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
Os resultados das pesquisas que tenho desenvolvido sobre a educação superior e, notadamente, a pesquisa que fiz para a minha Livre Docência, dão conta que na universidade pública que pesquisei, os professores estão preocupados em formar o aluno tendo um currículo focado em formação básica e geral para, sobre essa base, trabalhar conteúdos profissionalizantes. Esta tendência acompanha a das boas universidades do mundo. Por formação básica entende-se que o currículo está voltado para desenvolver no estudante a formação para a pesquisa, o desenvolvimento da criatividade, a autonomia de pensamento e julgamento, o seu autoconhecimento e a capacidade de comunicação e de argumentação. Na formação geral, o currículo busca trabalhar um saber integrado, superar a fragmentação da organização curricular atual, priorizar a dimensão ética, a aquisição de conhecimentos gerais, compreender as necessidades sociais, entendendo a responsabilidade de cada área específica do conhecimento na busca de soluções e das contribuições das diferentes áreas profissionais para o todo. É a formação do profissional com ênfase humana, seja ela nas áreas de exatas, artes, biológicas ou humanas. Na ênfase curricular sobre a formação profissional como preocupação prioritária, o currículo foca apenas os conhecimentos específicos, as demandas de mercado, o treinamento técnico, o espírito competitivo, a formação pragmática e as disciplinas de valor utilitarista.

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira: Como resultado das pesquisas, a porcentagem de respostas dos docentes em concordância com um currículo com ênfase na formação básica foi muito próxima ênfase na formação geral. Como este trabalho é um estudo de caso, não poderia afirmar que é uma tendência, mas o grupo de pesquisa que eu coordeno intenciona desenvolver a mesma pesquisa em todo o Brasil para termos um quadro da realidade nacional.

@prender: Essa boa pré-disposição é possível também nas instituições particulares?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
Esse entendimento e essa forma de organizar as questões curriculares dos cursos será uma disposição em toda instituição que tenha por finalidade a boa formação do estudante e futuro profissional. E não será naquelas que têm como finalidade principal o lucro financeiro, as chamadas universidades-empresas. Nestas, o aluno é apenas o meio para que seja auferido o lucro e não a preocupação principal. A finalidade educativa é o meio que a empresaria entendeu empreender seu capital financeiro visando o seu retorno e não é uma finalidade educativa verdadeira.

@prender: As instituições de ensino superior não são capazes de formar profissionais segundo os interesses do mercado de trabalho ao mesmo tempo em que formam um profissional-cidadão que contribua com sua atividade para a transformação social? 

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira: Um direcionamento não precisa excluir o outro, necessariamente. No entanto, a lógica do mundo neoliberal com a conseqüente visão empresarial da educação superior tornam os empresários da educação cegos para essa relação, pois, para se formar um bom profissional é necessário um empreendimento em educação, em um bom corpo docente, em bibliotecas, em tempo de aula, em um ambiente verdadeiramente universitário, com discussões e eventos que tragam grandes temáticas para debates, em laboratórios e pesquisas etc. Estes aspectos estão longe  das preocupações de muitas instituições que apenas visam o ensino, as vezes até de forma aligeirada, com a perspectiva de oferecer a certificação ao aluno e não a formação. Também exigiria um novo olhar para as questões curriculares e não a forma fragmentada, linear, seqüenciada como estão organizados. 

@prender: Quão dispostos estão professores, governo, instituições de ensino superior, particulares ou públicas, a discutir e promover mudanças curriculares?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
Esta é uma questão difícil de responder e apenas temos algumas suposições baseadas na forma como as políticas da educação superior estão sendo traçadas, como tem sido o jogo dos interesses dos empresários da educação superior, e de como tem sido a formação dos professores que atuam nesse nível. As políticas atuais e, marcadamente, o Projeto de Reforma Universitária que está no Congresso, não apontam para uma disposição em traçar uma perspectiva que nos leve a visualizar a possibilidade de uma verdadeira formação universitária. Os pontos principais do projeto são as políticas de ação afirmativa, de inclusão, eficiência na relação professor-aluno, na exigência de um mínimo de formação para o corpo docente, de um mínimo, cada vez menor, no número de cursos de graduação e de pós-graduação para que uma instituição seja denominada "universidade". É um projeto assentado na visão de controle do ensino por meio do sistema de avaliação da educação superior [Sinaes], com pouca ou nenhuma conseqüência para as instituições descumpridoras.

@prender: Como se vê o projeto de Reforma Universitária?

Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira:
As análises que fazemos do projeto não escondem que suas proposições para o ensino superior não se diferenciam daquelas desenvolvidas nos últimos dez anos - especificamente na reconfiguração das esferas pública e privada - e que estão embasadas em uma preocupação de acompanhar as mudanças econômicas estruturais do mundo globalizado e as demandas do capital produtivo. Em relação às Instituições, creio que onde houver um bom corpo docente, que entenda a sua responsabilidade na formação e na vida do estudante, haverá, intrinsecamente, a disposição para promover e discutir reformas curriculares que favoreçam uma verdadeira formação do profissional-cidadão.

Copyright 2007 - CM Consultoria - Todos os direitos reservados