Aprender - O portal de ensino superior

Recursos Humanos

A sala de trabalho é a sala de aula

07/05/2007

O professor Carlos Alberto Júlio, 49 anos, não vê limites para se investir em ensino. Presidente da HSM, empresa líder no País em educação corporativa focada em alta gestão, faz críticas tanto ao que crianças aprendem nas escolas públicas quanto ao crescimento sem parâmetros de algumas Instituições de Ensino Superior.

Júlio, porém, tem uma certeza: muitas empresas substituem o papel do Estado na formação profissional, investem para educar funcionários e crescem com isto. Professor de instituições como USP, FGV e ESPM, e autor de três best-sellers ("Reinventando Você!", "A Magia dos Grandes Negociadores" e A Arte da Estratégia"), Júlio, defensor da educação corporativa, aposta que corporações em constante desenvolvimento são aquelas onde o departamento de recursos humanos é verdadeiramente estratégico, despacha com o presidente e cuida da educação de todos "como uma mãe cuida dos seus filhos".

@prender: A educação corporativa é uma necessidade no Brasil?

Carlos Alberto Júlio: De acordo com a última pesquisa que vi, a falta de gestores é o segundo maior inibidor para a abertura de novas empresas no Brasil, com um índice de 20,4% (o primeiro colocado é a falta de segurança, com 20,8%). O que ocorre é que do meio da pirâmide para cima a empresa há muita dificuldade para se encontrar talentos, pessoas preparadas para desafios. Já na base da pirâmide, sobra gente que não serve para o mercado de trabalho. São os excluídos da educação, da tecnologia e da informática. Assim, há um ciclo pernicioso. Se temos poucos gestores, também faltam investimentos para novas empresas e, assim, sobram pessoas na parte debaixo da pirâmide por falta de emprego. Por isto, a educação corporativa é muito importante.

@prender: Só educação corporativa resolve?

Carlos Alberto Júlio: Há problemas graves na formação. Precisaríamos receber os jovens preparados para a educação corporativa. Porém, isto não acontece na velocidade que necessitamos. Além das crianças e adolescentes que ficam pelo caminho nas escolas, a maioria que completa os 11 anos de ensino básico e fundamental não tem base, condições de aprendizado para seguir em frente. Não sabe escrever e não conhece matemática.

Agora, é preciso tirar desta estatística o aluno de classe média, aquele que o pai consegue manter num bom colégio. Uma boa escola hoje na grande São Paulo pode custar R$ 2 mil por mês, mais do que se paga em uma instituição de ensino superior como a FGV (Fundação Getúlio Vargas). Este estudante chega à faculdade com bom raciocínio analógico e matemático, por exemplo. Ele compreende um texto e sabe escrever.

@prender: Há problemas também nas Instituições de Ensino Superior?

Carlos Alberto Júlio: Muitas vezes, o aluno que chega despreparado ao terceiro grau pega uma instituição despreparada para lidar com ele. É, por exemplo, uma escola que cresceu muito e seu empreendedor enfrenta problemas de gestão, como a dificuldade para pagar sua folha, seu aluguel, e que, por isto, enche a sala de estudantes. E o pessoal que vem da baixa renda encontra cursos universitários com mensalidades de R$ 200 ou R$ 300, com problemas. Onde colocaremos este aluno que saiu de uma faculdade assim? Vamos dar uma gerência para ele? Dar um cargo de analista de marketing? Se não se consegue fazer nem uma planilha excel com mais profundidade, também não é possível analisar uma situação de mercado, não se monta um fluxo de caixa.

@prender: E como as empresas têm solucionado este problema?

Carlos Alberto Júlio: Existem duas iniciativas. Um dos métodos para se ter um bom profissional é tirá-lo do concorrente. Mas isto geralmente é caro e demora. Porém, é o que as empresas têm feito, nunca se viu tanta troca de profissionais. A média hoje de movimentação do meio da pirâmide para cima está abaixo de dois anos e meio. A outra maneira é a preparação. Aí se vê as universidades corporativas.

@prender: Há uma troca de papéis?

Carlos Alberto Júlio: É uma situação inusitada: a empresa virou escola e a escola virou empresa. Ou seja, a empresa teve que montar sua escola ao mesmo tempo em que as escolas de negócios se transformaram em empresas. Existem aspectos positivos. Mas o negativo, no caso da empresa que vira escola, é que ela sai de sua missão, de seu foco do negócio, para se dedicar a uma área que não necessariamente tenha competência, que é o ensino e a educação profissional. E a escola que virou empresa, às vezes está tão focada no lucro e nos seus problemas de gestão, retenção de aluno, matrículas e atração de novos alunos, que de repente não consegue cuidar como deveria da parte técnica educacional.

@prender: Qual o perfil da empresa que investe em educação corporativa?

Carlos Alberto Júlio: Uso um binômio em minhas palestras ou em minhas aulas, o da "empresabilidade", ou seja, as empresas que só querem trabalhar com os melhores, e o da "empregabilidade", que é se conseguir trabalhar em uma instituição destas. Na essência, a corporação sabe que para ter e manter os melhores, além de pagar bem, precisa conseguir criar nestas pessoas um sentido de evolução, de empregabilidade, de que ela é importante. E, para isto, desenvolvem universidade corporativa, com programas mais densos, mais pesados de capacitação.

Geralmente são multinacionais ou grandes empresas nacionais que saem do discurso de que as pessoas são importantes e mostram que elas são realmente importantes. São empresas que permitem o fazer, o propor e o errar. Que entendem e aceitam o erro diagnosticado. Que o erro assimilado é o patamar para se tentar de novo com mais chances. São empresas que têm lideranças, que não temem o novo, não temem os jovens, não temem o velho. São empresas que apóiam adversidades, seja ela de idade, de raça e cultural, porque sabem que a sinergia vem justamente desta mistura de raças, de idades, de sexos e de graus educacionais diferentes. São empresas onde o departamento de recursos humanos é verdadeiramente estratégico, despacha com o presidente e cuida da educação de todos como uma mãe cuida da educação dos seus filhos.

@prender: Dê um exemplo aqui no Brasil de empresas que se preocupam com a educação de seus colaboradores?

Carlos Alberto Júlio: Uma empresa quase que pública com este estilo é a Petrobras. É só ver o quanto ela investe em educação e não apenas para achar petróleo a 1,5 mil metros no fundo do mar, mas na educação em geral. Ou então empresas como a Natura, que investem muito em programas de capacitação e treinamento. Temos até casos em empresas menores, como a construtora Tecnisa, que às 17h pára a obra e promove alfabetização para quem não sabe ler e escrever. Propõe cursos de encanador ou eletricista para que serventes não fiquem a vida inteira na mesma função. E depois vão trabalhar na própria construtora. Talvez tenhamos aprendido com as grandes multinacionais, que implantaram processos de ensino em suas matrizes, mas hoje existem muitas boas iniciativas de empresas de todos os portes preocupadas com educação no Brasil.

@prender: Sua empresa tem demonstrado esta preocupação?

Carlos Alberto Júlio: Na HSM, temos feito várias ações. Estamos no ar desde primeiro de abril em testes na Argentina e vamos lançar no dia 1º de junho no Brasil o Management TV, o primeiro canal 24 horas de gestão do mundo. Ele funciona como se fosse uma HSM na telinha. Teremos programas com brands, que mostram como se constrói uma grande marca, outros com entrevistas com CEOs das grandes corporações do mundo, reality show, como uma cantina italiana na qual um sobrinho vem trabalhar com o tio e já quer mudar tudo o que está acontecendo por lá, ou seja, trataremos de problemas de negócios familiares. Vamos visitar uma grande corporação semanalmente e mostrar como ela funciona por dentro. O canal será para assinantes da tevê paga Sky.

@prender: Qual a participação da Internet na educação corporativa?

Carlos Alberto Júlio: Ainda há muito que crescer. A Internet ajuda a ter acesso à informação, mas informação não é conhecimento. É preciso preparo para tirar conhecimento da informação. Dizem os especialistas que quem usa a Internet hoje ainda foi educado no modelo analógico, com caderno e lousa. E que a geração que hoje está mais no videogame do que em sala de aula vai gostar mais de aprender e interagir com o computador e aí o e-learning será uma ferramenta muito importante de ensino. Hoje ele tem significativo apoio à pesquisa, novos desenvolvimentos e também em trabalhos complementares na escola.

@prender: O retorno do investimento em educação corporativa é garantido?

Carlos Alberto Júlio: Não tenho dúvida de que o retorno vem. Os livros do professor Jim Collings ("Feitas para Vencer" e "Feitas para Durar") nos fazem perceber que as empresas que mais investem em educação são as que têm mais retorno e melhor "sustentabilidade", e esta palavra hoje é chave, não é moda. Significa que a empresa consegue enxergar que nos próximos dois anos tem um bom negócio.


Copyright 2007 - CM Consultoria - Todos os direitos reservados