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A universidade à espera do PAC tecnológico

27/12/2007

Christina Lima
da Tempestade Comunicação


A professora Ana Maria Fernandes, do Departamento de Sociologia da UnB (Universidade de Brasília), anda animada com o futuro próximo do setor científico brasileiro. O motivo é o Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional, mais conhecido como PAC da Ciência, apresentado no dia 20 de novembro, pelo governo federal.

A doutora em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e grã-cruz da Ordem do Mérito Científico e Tecnológico deposita suas esperanças nos R$ 41,2 bilhões que estão previstos para serem investidos até 2010 em quatro principais linhas de ação: Expansão e Consolidação do Sistema Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação; Promoção da Inovação Tecnológica nas Empresas; Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Áreas Estratégicas e Ciência Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social.

"A comunidade científica recebeu bem o PAC da Ciência porque o plano tem ações delineadas para vários anos, previsão de aumento de recursos, de bolsas e de maior participação do setor privado no financiamento", resume. Apesar de os incentivos à ciência no Brasil terem um histórico de valores contingenciados, ou seja, previstos e não-liberados, Ana Maria mantém a fé: "Vejo o PAC com otimismo", disse.

@prender: Como o PAC da Ciência ajudará as instituições de ensino?

Ana Maria Fernandes: Creio que o PAC da Ciência poderá ajudar a todas as instituições de ensino de maneira direta e indireta. As IES [Instituições de Ensino Superior] se beneficiarão com mais verbas para pesquisa, equipamentos e bolsa de iniciação científica, mestrado e doutorado. De forma mais direita, os avanços virão por meio de convênios e editais, principais instrumentos de financiamento de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação no país.

@prender: O PAC da Ciência foi muito bem recebido pela comunidade científica. Quais os motivos para o otimismo?

Ana Maria Fernandes: Por ser um plano com ações previstas para vários anos, com previsão de aumento de recursos, de bolsas e de maior participação do setor privado no financiamento. O PAC dá unicidade a todas as ações do governo federal, que eram dispersas em vários ministérios, e também coordena as ações do governo federal com as dos estados e municípios. Outro ponto positivo é estabelecer as ações estratégicas por áreas do conhecimento. Suponho que a comunidade científica tenha se sentido mais participante do plano.

@prender: O volume de recursos atende à expectativa do setor?

Ana Maria Fernandes:
É um aumento de recursos. O PAC anunciou R$ 41,2 bilhões até 2010 em verbas. Neste ano, o Brasil investiu 1,02% do PIB (Produto Interno Bruto) em CT&I [Ciência Tecnologia e Inovação], e a previsão é de que o percentual aumente para 1,5% em 2010. O setor privado, que investiu 0,51% do PIB na área em 2006, será incentivado a aplicar 0,65% em 2010.

As 102 mil bolsas de estudo do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], deste ano, vão crescer para 170 mil, também em 2010. Estas mudanças representam aumento de 50% dos investimentos em bolsas, que, por sua vez, também terão seus valores aumentados em 20% a partir de março.

@prender: Alguns pesquisadores, porém, desconfiam se o dinheiro anunciado chegará mesmo aos laboratórios. Esse receio tem fundamento?

Ana Maria Fernandes:
Esse receio existe porque os recursos têm sido contingenciados sistematicamente ao longo dos anos. Ou seja, mesmo recursos orçamentários e previstos em lei, inclusive Fundos Setoriais, vêm sendo direcionados para a reserva de contingência. Agora, o que nos resta é aguardar pelo melhor.

@prender: A iniciativa privada no Brasil dá apoio às instituições de ensino para desenvolvimento tecnológico?

Ana Maria Fernandes:
A participação ainda é muito pequena. Esta cooperação vem sendo estimulada no Brasil pelo setor público, e ela também vai se tornando mais necessária num mundo mais competitivo e globalizado. Além das iniciativas conjuntas com os estados e municípios, o PAC prevê acordos com o setor empresarial.

@prender: Você destacou que umas das boas novidades do PAC é o envolvimento de mais órgãos oficiais e ministérios com o setor produtivo. Na prática, de que forma essa interação será benéfica?

Ana Maria Fernandes:
Por meio de uma coordenação e maior participação do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] e Petrobras, por exemplo. Os editais dos fundos setoriais estimulam a participação de empresas nas pesquisas oriundas das universidades, fortalecendo esta cooperação.

@prender: Hoje, nossas universidades são bem equipadas para desenvolvimento de tecnologia?

Ana Maria Fernandes:
Alguns laboratórios sim, mas há também institutos de pesquisas como a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], por exemplo. É importante que as universidades desenvolvam pesquisa básica e que cooperem com outras instituições, como as indústrias, para o desenvolvimento de tecnologias ou de produtos, ou ainda para realizar inovações em processos. Mas ainda existe a polêmica se as universidades devem investir em inovação ou a missão dessas instituições seria mesmo ensinar.

@prender: Uma das quatro linhas de ação do PAC é a "Inovação para o Desenvolvimento Social". Quais as principais mudanças nesta área?

Ana Maria Fernandes:
Destacar o desenvolvimento social no plano já é muito importante e espera-se que, assim como as demais, esta linha de ação seja realizada plenamente e alcance os objetivos de integração de um desenvolvimento tecnológico, econômico com o social.

@prender: Uma das metas do PAC é "Promover a popularização e o aperfeiçoamento do ensino de ciências nas escolas, bem como a produção e a difusão de tecnologias e inovações para a inclusão e o desenvolvimento social". Essa é uma expectativa realista?

Ana Maria Fernandes: Creio que já há avanços no Brasil nestas áreas, principalmente na popularização da ciência, na melhoria do ensino das ciências, na criação e no desenvolvimento de centros e museus de Ciência e Tecnologia. A SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] vem contribuindo para isto há muitas décadas.

É uma expectativa realista sim, porque pode ser realizada, mas há muito para se fazer. Os objetivos são importantíssimos e todas as ações poderão agregar algo na direção da inclusão e do desenvolvimento social.

Foto: Rodrigo Dalcin/UnB Agência

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